domingo, 21 de janeiro de 2007

maquiagem



Quem é capaz de olhar através da máscara, da maquiagem,

e permanecer fiel?

Capaz de conhecer as fraquezas, fragilidades, defeitos,

as partes muliladas de alguém e permanecer?

Capaz de transformar as partes feridas,

as cicatrizes em algo belo,

algo que também é capaz de gerar força,

de gerar vida?

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

Pássaro Contente


"Mulher mais adorada!
Agora que não estás, deixa que rompa
O meu peito em soluços!
Te enrustiste
Em minha vida; e cada hora que passa
É mais por que te amar, a hora derrama
O seu óleo de amor, em mim, amada...
E sabes de uma coisa?
Cada vez
Que o sofrimento vem, essa saudade
De estar perto, se longe, ou estar mais perto
Se perto, – que é que eu sei!
Essa agonia
De viver fraco, o peito extravasado
O mel correndo; essa incapacidade
De me sentir mais eu, Orfeu; tudo isso
Que é bem capaz de confundir o espírito
De um homem – nada disso tem importância
Quando tu chegas com essa charla antiga
Esse contentamento, essa harmonia
Esse corpo!
E me dizes essas coisas
Que me dão essa força, essa coragem
Esse orgulho de rei.
Ah, minha Eurídice
Meu verso, meu silêncio, minha música!
Nunca fujas de mim!
Sem ti sou nada
Sou coisa sem razão, jogada, sou
Pedra rolada.
Orfeu menos Eurídice...
Coisa incompreensível!
A existência
Sem ti é como olhar para um relógio
Só com o ponteiro dos minutos.
Tu És a hora, és o que dá sentido
E direção ao tempo, minha amiga
Mais querida!
Qual mãe, qual pai, qual nada!
A beleza da vida és tu, amada
Milhões amada!
Ah! Criatura!
Quem Poderia pensar que Orfeu:
Orfeu Cujo violão é a vida da cidade
E cuja fala, como o vento à flor
Despetala as mulheres - que ele, Orfeu
Ficasse assim rendido aos teus encantos!
Mulata, pele escura, dente branco
Vai teu caminho que eu vou te seguindo
No pensamento e aqui me deixo rente
Quando voltares, pela lua cheia
Para os braços sem fim do teu amigo!
Vai tua vida, pássaro contente
Vai tua vida que estarei contigo!"
("Monólogo de Orfeu"-Vinícius de Moraes)

domingo, 7 de janeiro de 2007

Amar


Amar é o exercício maior da humildade.
Porque amar é a entrega.
E porque amor é não ter certezas nem limites.
Amar é humildade finalmente somos obrigados a reconhecer
que somos incompletos, imperfeitos.
Não podemos suprir tudo que a pessoa que amamos necessita.
Não podemos sozinhos dar,oferecer tudo que a pessoa precisa.
Não podemos.
E reconhecer isso é o início da humildade.
Não somos perfeitos
e perceber isso dói.
Mesmo se entregando completamente, há coisas
que estarão fora dos seus limites, do seu alcance.
É perceber que quem amamos é tão livre
quanto nós mesmos desejamos ser.
É na liberdade que o amor é verdadeiramente uma escolha.
E amar é um exercício de humildade porque sendo uma escolha, inclui renúncias.
Toda escolha pressupõe uma renúncia.

sábado, 6 de janeiro de 2007

Círculos


Nuvens desmanchando-se no céu...
nuvens espalhando-se, desprendendo-se.
Nuvens seguindo seu ritmo,
acompanhando o ritmo do vento.
Pequenos pássaros voando sobre a copa das árvores imensas
com belos troncos retorcidos.
Folhas que às vezes parecem enfeites,
parecem que estão sempre caindo,
caindo, caindo, caindo...
A natureza pode absorver tudo.
Tudo dentro dela funciona segundo seu ritmo próprio.
Tudo é utilizado, absorvido, reintegrado.
Tudo tem um espaço determinado, tem uma função,
nada se perde.
Um ritmo delicado que pode levar meses, anos,
décadas, para se concluir alguma coisa.
A natureza tem seus ritmos próprios.
Somos uma pequena parte disso tudo.
Uma parte ínfima.
A natureza nos mostra um mundo harmonioso,
belo, puro, compreensível.
Quando algo morre volta a fazer parte da Terra.
Volta para as origens e vai se transformando,
se decompondo.
O corpo volta para a Terra e estando em contato
com matéria viva o corpo morto recebe oxigênio,
transforma-se.
Mudando de um estado para o outro,
o corpo é absorvido pela Terra,
volta a ser terra, ar, fogo, água, alimento.
E nessa transformação o que antes era corpo pode virar
flor, nuvem, bicho, fruta.
É a maneira do corpo voltar a pulsar de forma diferente.

Inconstância


Nem sempre é fácil transformar nossa dificuldades
em algo que nos impulsione, que nos estimule.
Nem sempre é fácil encarar problemas com alguma leveza,
enfrentar obstáculos com calma,paciência, sabedoria.
Não é fácil transformar tristezas em alegrias,
ou não se deixar abater pelo pessimismo.
É preciso enxergar na lagarta a futura borboleta,
transformar terra e adubo em flores,
compreender que a semente morre para que a planta surja,
que a flor é o prenúncio do fruto,
que o fruto traz em si a semente de uma outra planta.
Nossa realidade funciona em ciclos,
é instável, é a imagem, é a ilusão.
Aprender a não resistir às mudanças e à instabilidade,
ter leveza e se deixar levar pela corrente do que é inevitável.
Estar disponível e se entregar parece fácil,
mas nem sempre é;
pode ser natural para alguns
e um aprendizado para outros.
É preciso estar disposto a se arriscar
na aventura do novo.

Terra


A falta de contato com a Terra nos torna menos capazes de suportar ou reconhecer os nossos limites, nossas falhas, nossos defeitos, até mesmo as doenças e a morte.
A terra é a base... é o contato com o orgânico.
É na terra que as sementes desabrocham, é na terra que a água da chuva se infiltra, é a terra que transforma animais e plantas mortos em adubo.
A terra nos fornece alimento e é na terra que nosso corpo descansará pela última vez.
É a terra que ensina que tudo é passageiro que tudo floresce para depois murchar, morrer, apodrecer e virar adubo para servir de base para que outros surjam e se alimentem.
Sem o contato com a terra ficamos alienados, temos menos capacidade de suportar a dor, a solidão, a transitoriedade.
Ficamos alienados e perdemos a capacidade de encarar a realidade...nos fechamos em nossas manias, neuroses, dependências.
Um pássaro preso em uma gaiola já não canta como quando em liberdade;
um animal criado em cativeiro perde o seu instinto;
um cavalo selvagem quando domesticado perde parte de seu encanto;
um animal capturado e mantido pres perde sua vivacidade, perde o brilho no olhar;
são apenas sombras do que foram seus ancestrais;
um esboço do que podem ser quando livres.
Alguns animais chegam a morrer,
outros não se reproduzem por sentir e reconhecer que
seus filhotes viverão em um ambiente
estranho ao seu habitat de origem.

ruína


Nós nos esquecemos de aprender com as ruínas.
Com as ruínas que nos cercam.
Não admiramos mais as ruínas,
não sabemos mais ver a beleza nas ruínas.
Nós relacionamos ruínas a algo ruim,
relacionamos o velho a algo ruim,
e não aprendemos mais com a experiência
da velhice, da antiguidade.
Não enxergamos mais beleza nas rugas,
cicatrizes,
na ação do tempo esculpindo tudo que está envolvido por ele.